sábado, 11 de junho de 2011

Conceito de habitar (sobre um texto de Alberto Campo Baeza)



O texto que comenta a dissertação de Alberto Campo Baeza, mais que uma dissolução de factos técnicos sobre métodos de expressão na construção das habitações ao longo dos tempos, reflecte tudo aquilo que um arquitecto tem por obrigação não esquecer. 

É do saber académico que nasce uma cultura histórica que define como tudo começou. Assim como a ciência, também o conceito habitacional do homem se foi desenvolvendo, conforme os meios e descobertas à sua disposição. Inconscientemente ou não, a natureza humana exigiu que um indivíduo com vontade de sobreviver adoptasse um abrigo. Dado o seu escasso raciocínio criativo da época, este começou pelo uso de abrigos construídos pela própria natureza, a quem terá mais tarde retirado o papel de criador. Primeiro foi portanto a necessidade de sobrevivência, que o terá movido. Mais tarde, com a consciência mais desenvolvida e após dar início a uma vida social, e ao mesmo tempo no papel de explorador de novos sítios, novos espaços, começou este a imaginar ir mais além. 

O explorador, mais que novos espaços para construir, descobriu novos climas, novos materiais para construção, novas culturas. Cruzou conhecimento, viu-se de frente com outras necessidades, e porque a descoberta traz benefícios, mas também novos problemas, propôs-se à sua resolução. Talvez tenha sido nesta subjugação de factores que o homem terá começado a sentir que um abrigo, mais que um espaço para defesa e manutenção dos sinais vitais, poderia ser beneficiado, valorizado, para novas sensações que então ia descobrindo. Daqui nasceu o conceito de arquitectura. O “criar um espaço”, o “manifestar sentimentos”, a “procura da perfeição na qualidade de vida”. 

Mas o espaço evoluiu com o homem. O “mas”, que questiona esta evolução, lembra que a mesma se terá dado para o melhor e para o pior. Uma casa ideal, tem que fundir uma cultura superior de quem a projecta, com as necessidades e “preciosismos” do utilizador a quem se destina. O arquitecto quis inconscientemente que a sua cultura acompanhasse toda a evolução do homem, boa e má. O homem, utilizador, habitante, encravou dentro da habitação toda a sua evolução, boa e má, por assim dizer. 

A certa altura, nomeadamente no início do século XX, já dificilmente se conseguia perceber qual era o equilíbrio entre as necessidades básicas do ser humano no habitar e os caprichos e meios de informação que este tinha ao seu dispor dentro da habitação. 

Aqui já determinados valores estavam a ser substituídos por hábitos ainda hoje tão questionáveis. 

Nos países desenvolvidos, o calor de uma divisão com cozinha, lareira e espaço para seu usufruto, estava a ser substituído pelo calor da electricidade, numa sala com televisão e luz artificial. A energia positiva da luz natural que abraçava um edifício supostamente bem pensado em épocas anteriores, foi atirada ao esquecimento vezes sem conta, como se a então endeusada electricidade a pudesse alguma vez substituir. As divisões de trabalho árduo e de arrumação de elementos vitais para a sobrevivência do homem, foi atirada para um anexo, em favor do sedentarismo de uma poltrona. 

O espaço necessário para a cultura de alimentos e pastorícia, foi substituído por um deck de madeira a envolver uma luxuosa piscina a tardoz. 

Toda uma infinidade de alterações no habitar, estão ligadas às necessidades básicas da época. Não pode o arquitecto porém, limitar-se a cair no esquecimento e alterá-las sem o mínimo de senso na conservação de valores essenciais para a cultura humana. Mesmo que seja essa a tendência do leigo utilizador. O facilitismo de cair na ignorância do que a televisão nos fornece. 

Adapte-se uma casa às novas tecnologias. Crie-se um espaço prático e útil em função do habitar de hoje em dia. Não caia porém o arquitecto na tendência do comodismo típico dos dias de hoje. 

Uma casa, mais que um quarto e uma porta de saída para o exterior, com uma sala que nos anima o fim-de-semana, deve ensinar-nos a viver, a cruzar sentimentos, experimentar sensações, e acima de tudo a viver.

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