Pensar a arquitectura reúne seis conferências de Peter Zumthor, proferidas em universidades entre 1988 e 1998.
Zumthor nasceu em 26 de Abril de 1943 em Basileia, Suíça. Filho de um marceneiro, iniciou a sua actividade em carpintaria em 1958. Estudou design na escola “Kunstgewerbeschule”, em Basileia. Já no decorrer da década de 60 continuou sua formação no Instituto de Pratt, em Nova Iorque. Nessa época participou em diversos trabalhos de restauração de edifícios históricos. Formou-se finalmente em arquitectura em 1968, na Suíça.
A formação artesã de Zumthor e a vivência do fazer estão na origem do seu pensamento e forma de exercer arquitectura. Detém o seu próprio atelier de trabalho em Haldenstein, Graubunden, na Suíça, desde 1979.
Foi homenageado com o Prémio Carlsberg de Arquitectura em 1998 e vencedor do VI Prémio Mies van de Rohe de Arquitectura da União Europeia, em 1999, com o Museu de Arte Bregenz na Áustria. Nas seis conferências reunidas na publicação em análise, Peter Zumthor fala do seu trabalho, do espaço da arquitectura, do ensino/aprendizagem, sempre a partir da percepção sensorial das coisas. Debate e elabora sua relação com o fazer, tendo como referência o pensamento de Martin Heidegger – “A permanência ao lado das coisas é o traço essencial do ser humano”.
UMA INTUIÇÃO DAS COISAS
1988
À procura da arquitectura perdida
Quando o autor inicia a escrita que o leva a propagar pensamentos ligados à sua origem, define uma característica muito especial na arquitectura, a memória. Lembra sentimentos, imagens, sensações físicas e sentimentais que ainda hoje caracterizam a sua função de arquitecto. A forma como vivia a arquitectura sem pensar sobre isso, definitivamente o motor que nos leva a agradar o destinatário da criação. O habitante.
De facto a arquitectura não começa por mais que isto. Pequenas imagens que perpetuam na nossa memória, fazendo-nos interrogar de que forma as fixamos com tanta firmeza. Um pequeno objecto, sentir uma maçaneta de uma porta, respirar o ar que entra por um vão de sala, lembrar uma cozinha simples e antiga, o contraste da matéria quando caminhamos por um pavimento específico, um número infindável de pormenores que quer queiramos quer não, entram no quotidiano de quem usufrui de um edifício, habitacional ou não.
As memórias que vivemos podem passar de casa em casa, de terra em terra, fixando na mente as vivências arquitectónicas mais profundas que conhecemos.
Desta forma, quando alguém como Zumthor ou qualquer outro arquitecto devidamente sensibilizado projecta, tem quase uma obrigação não motora de ficar emerso nestas memórias antigas e “meio esquecidas”.
Do material que é feito
Quantas vezes nos interrogamos sobre qual o material adequado para a função específica de um objecto, um compartimento, qualquer elemento arquitectónico em geral? Provavelmente, quase o mesmo número de situações em que chegamos à conclusão de o material mais óbvio ficou no final aplicado. A explicação conforme teoria do autor, baseia-se na transmissão cultural da utilização de determinado material.
Obviamente que a arquitectura existiu mesmo antes do próprio homem se aperceber da sua existência. Porque nela se insere também a necessidade de adequar o melhor material para uma determinada situação, é preciso reconhecer que antes da nossa geração, já um número interminável de criadores tinha descoberto a melhor solução em determinados tipos de limitações.
Assim, qualquer material, não sendo perpétuo na sua aplicação, pois vem-se por vezes descobrindo melhores soluções para um determinado elemento, torna-se muitas vezes o escolhido pelas suas características sensoriais e significativas.
O trabalho nas coisas
“A construção é a arte de formar um todo com sentido a partir de muitas partes”
Esta afirmação do arquitecto responde a todas as interrogações que ainda possam existir sobre a importância de criar seja o que for. No precedente desta conclusão, ele exemplifica a construção musical de Johann Sebastian Bach. Os elementos melódicos, harmónicos e rítmicos do compositor, que criam o “todo” de uma música.
Na arquitectura, tal como na música, na escrita, e num número considerável de actividades, existe a possibilidade de o homem poder criar de facto alguma coisa em concreto. Tudo depois da escolha de materiais, elementos, distribuições, formas, o que nos possa levar à criação final de uma obra.
O saber dos homens sobre o fabrico das coisas, segundo o autor, impressiona-o. Todo um rol de trabalhos envolvidos em volta de um projecto, seja qual for o seu cariz, que observando-se bem elaborado, leva-nos a sentir respeito pelo cuidado e a habilidade do homem que o fez.
Para o silêncio do sono
Mais uma vez, se encontra referida a música na obra do arquitecto. Os andamentos lentos nos concertos de piano de Mozart, as baladas de John Coltrane, o tom de voz em certas canções que o tocam profundamente.
É verdade o espanto que se nos impõe perante a capacidade dos homens para criar melodias, harmonias e ritmos. Os sons são imensamente variáveis, e como sabemos, podem ser ritmados e consequentes, ou pelo contrário, opostos e desconcertantes (ao que podemos chamar apenas de barulho). Estes segundos são hoje aplicados na música contemporânea.
Como refere o autor, também na arquitectura contemporânea se procura, e deveria existir, uma revolução de ritmos e sentimentos, muito embora limitada ao que se possa criar, para que não seja demasiado perturbante, ao ponto de nos tirar a curiosidade sobre uma obra nela inserida.
A arquitectura, tal como a generalidade das artes, tem o seu espaço de existência. E começou de uma forma natural, não intencional de todo, como a vemos hoje, mas sim uma forma de criar ritmicamente e com funcionalidades aplicadas a cada função, apenas e só. Um cenário confortável, um chão que aconchegue o pisar dos nossos pés, um espaço que nos permita concentração a trabalhar, um espaço que nos proporcione o silêncio do sono.
Com a marca do desejo
A diferença entre o realismo e o virtuosismo gráfico de uma obra, coloca em confronto arquitectos como Zumthor. Na opinião deste, o mundo concreto onde possamos observar uma obra, é a essência clara do que pode ser a arquitectura.
Para outros porém, pode ser encontrada numa ideia, a sensação do desejo de a criar, o que também nos leva ao concretizar de uma arte.
Um esboço será sempre importante para o nascimento de uma obra. É o elemento principal na concepção da ideia, pois precede a sua concretização e antecipa-se à sua vertente técnica.
No entanto, e no pensamento do autor, só com a sua consequente concepção podemos completar um acto de exercer arquitectura. Não que não seja importante a transmissão de uma ideia, pois ela pode por si só transmitir sensações e levar-nos a experimentar a vontade de a ver realizada, o que pode ser deveras interessante. No entanto, ele considera em grande parte superior, a sensação de experimentar uma ideia realizada, e nesse entender, podemos concordar que a arquitectura é um conjunto de experiências dela proveniente.
Fendas no objecto selado
“As casas são configurações artificiais. Consistem em pormenores que têm de estar ligados entre si. A qualidade destas ligações determina fortemente a qualidade do objecto final.”
A percepção do objecto não é reduzida pela existência de outros pormenores secundários. Cada contacto, cada ligação, cada união está lá, para servir de base à ideia de um todo.
Esses pormenores, quando bem aplicados, não servem apenas para decoração. Não desviam a atenção do utilizador/observador, levando-o sim à compreensão do todo.
Para além dos sinais
Peter Zumthor considera três grupos, que sociais ou não, existem de facto na sociedade mundial. O que “concretiza”, onde segundo ele se ouve que tudo é possível, o que se conforma com as limitações actuais, e aquele que sofre com a inospitalidade dos nossos tempos, onde segundo estes, já nada pode ser feito. São opiniões contraditórias mas com base nos factos reais do mundo que nos rodeia… Na sociedade actual, vemos a dissolução constante de costumes e tradições, alterações consideráveis na cultura das gentes, artificialização de grande parte da realidade que vivemos, e tudo isto nos leva a uma perda de identidade.
Isto leva-nos a uma certa confusão na percepção de um objecto. Quais as suas origens? Qual o seu verdadeiro objectivo? Terá uma finalidade consequente? Começa por perder a mensagem, torna-se um pouco vazio para quem o observa. Ele poderá ter uma força especial na sua existência, no entanto, é hoje mais difícil, chegarmos a esse ponto de conclusão.
Paisagens completadas
Certas obras parecem ter existido num devido lugar desde sempre. Foi tal a sua ambientação a uma época, um lugar, uma cultura, que já não conseguimos imaginar aquele sítio sem elas.
No entanto, para que esta sensação possa existir na nossa percepção, foi necessário um processo muito complexo de ambientação ao longo dos tempos, para que hoje possamos associar uma determinada obra aos factores que levaram à sua existência num determinado local, e a forma que emana uma época.
Actualmente interrogamo-nos se será possível tal processo nos tempos que virão. Pois para que o dito processo tivesse ocorrido, foi levado sempre em conta um enorme respeito pela memória do que até aí existia.
A tensão no interior do corpo
Peter Zumthor considera os desenhos de execução técnica como os melhores de todos os que um arquitecto pode produzir, pela sua especificidade e objectividade.
São em geral destinados a pessoas dentro da área, tendo em vista uma percepção real e precisa daquilo que vai ser executado, com “certeza e confiança”, como quem diz “vai ser exactamente assim”.
Verdades inesperadas
Trata-se de um capítulo muito delicado na transmissão da ideia do arquitecto.
Para ele, existiu uma transformação no seu entender da arte ao longo da sua experiência. Terá passado de uma juventude poética e irracional, de onde julgava encontrar tudo o que queria para poder projectar, para uma realidade que se foi impondo ao longo dos tempos, achando mesmo que só uma obra especificamente desenvolvida, com formas e tensões observáveis no mundo real nos pode fornecer a arte da arquitectura.
Cobiça
Quando um arquitecto fala na sua obra nem sempre transmite todas as suas intenções ou razões para o desenrolar da ideia inicial. Podem existir paixões secretas que não possa ou não queira revelar, memórias de carácter íntimo ou meramente pessoal.
Mas a verdade é que as emoções, preferências, ânsias e cobiças seriam bastante influentes na interpretação de um ouvinte, caso reveladas, para uma melhor compreensão da obra. Não se entenda porém que seja positiva a sua revelação, quando a intenção for levar um projecto avante.
Escrito no espaço
A arquitectura concilia num edifício duas noções de espaço, mencionadas pelo arquitecto, porém básicas na formação de quem projecta.
Um edifício escreve-se pelo espaço interior e exterioriza-se para um segundo, muito mais complexo e infinito, que no entanto apenas abraça o edifício, que pode muitas vezes querer isolar-se do mesmo.
Não parece ao início, mas dada a complexidade da relação entre espaços no edifício, e a outra relação entre este e tudo o que o rodeia, boa ou má, processa um rol de mistério em volta dela, dificilmente perceptível na totalidade a qualquer um de nós.
Raciocínio prático
“O acto de criação de uma obra arquitectónica vai para além de sabedoria histórica e manual. No seu centro, encontra-se a confrontação com as questões do seu tempo. No seu momento de criação, a arquitectura está ligada de uma maneira especial ao presente. Reflecte o espiríto dos seus inventores e dá as suas próprias respostas às perguntas actuais, isto é através da sua utilidade e aparência, da sua relação com outros arquitectos e da relação com o lugar.”
Zumthor observa nitidamente o mundo construído e tenta recolher nas suas obras o que lhe parece valioso, corrigindo o que incomoda e recriando o que nos falta.
Passos deixados para trás
Num edifício, a forma e a construção são factores que se conjugam num todo, já não fazendo sentido a sua separação. Um é o consequente do outro. No que concerne à aparência e função do mesmo também o arquitecto faz a mesma observação, não se julgando, em análise próprias que sejam estes segundos factores assim tão inseparáveis. Por vezes o que entendemos por aparência associada a uma função, também pode ser contrariada. É possível que venha mesmo a melhorar essa função, quando se pensaria no início que a mesma estaria desassociada. Neste entender, só com uma aparente separação destes dois elementos poderemos de preferência voltar a uni-los de futuro. É portanto uma questão mais complexa que aparenta de facto.
Resistência
Numa sociedade que venera o insignificante em determinadas artes, julga o arquitecto que a arquitectura deve impor-se e contrariar uma tendência de perda de identidade, facilmente reconhecível em campos como a pintura, ou a música, por exemplo.
Lembrar que nasceu de necessidades e respostas complexamente elaboradas é essencial para que não se difunda um projecto, que não pode dar ao mundo obras abstractas, que possam encher o olho, mas que de futuro não representem uma época, uma sociedade, um saber que se lhe associe.
Como se começa a concluir a partir deste ponto, tem o arquitecto um entender de que a obra deve ser robusta, afirmativa, confiante, e acima de tudo, que abrace o seu fim convictamente.
“Num tempo em que a cultura da criação se encontra estagnada e a beleza é arbitrária, aposto no efeito elucidativo deste trabalho.”
O NÚCLEO DURO DA BELEZA
1991
Este título provém de uma transmissão de rádio com o mesmo nome, ouvida e apreciada por Zumthor, onde se falava sobre William Carlos Williams, um relativamente conhecido poeta americano, cuja obra se baseia no ponto de vista de que não existem ideias para além das coisas e que a sua arte gira em torno de dirigir a percepção sensitiva ao mundo real para com ele se aparentar.
É da opinião do autor do livro em análise que devemos dar relevo a esta suposta existência de um núcleo duro na beleza e que o podemos aplicar em arquitectura.
A beleza encontra-se segundo o próprio nas coisas naturais, que não foram ocupadas por imagens ou mensagens, e sente-se frustrado por não poder descobrir o sentido das coisas por si próprio.
Zumthor pensa não querer “provocar emoções com as obras, mas sim permitir emoções”. E posto isto, desenvolver a obra sem necessitar de um pêndulo artístico sem significado, provocando algo com um lugar e função atribuída, “que desenvolva a sua própria força”.
Mas há quem reconheça a importância do aspecto artístico. Italo Galvino em “Seis propostas para o próximo milénio”, relata o caso de um poeta Italiano Giacomo Leopardi, que situa a beleza de uma obra de arte, neste caso a literatura, “no vago, no aberto, e no indefinido”. Pode esta afirmação ser considerada evidente, inicia o autor do livro, no entanto, como alcançar tal profundidade numa obra arquitectónico? A interrogação de que o vago e o aberto se deixem projectar, leva-nos a uma contradição na precisão do projecto.
De novo a música. De acordo com fontes de Zumthor o trabalho de um compositor não se assemelha em todo ao de um arquitecto. O compositor não ouve a música na sua mente antes de a escrever. O seu trabalho é diferente, considera o mesmo. Num projecto elaborado por Peter Zumthor, para uma estância termal nas montanhas, ele não quis recorrer a imagens pré-definidas, adaptando-as posteriormente ao programa. Procurou inicialmente “responder a questões fundamentais relacionadas com o lugar (…) e com os materiais (…)”. Só depois de concebidas as funções e ritmos precisos de uma resposta às limitações do projecto, foi descobrindo uma força originária destas limitações que formou o edifício, sem necessitar de formas estilisticamente pré-concebidas.
O autor interroga-se muitas vezes o porquê de se tentar tão poucas vezes o evidente. Porquê a pouca confiança dos jovens arquitectos nas coisas mais intrínsecas que constituem a arquitectura. “O material, a construção, o carregar e ser carregado, a terra e o céu, a confiança nos espaços (…)”
“A realidade que me interessa e para a qual devo dirigir a minha imaginação, não é a realidade das teorias deslocadas das coisas, mas sim essa outra que aponta para este habitar; a da tarefa arquitectónica concreta. É a realidade dos materiais – Pedra, tecido, aço, cabedal… - e a realidade das construções que utilizo para edificar, em cujas características tento penetrar com a minha imaginação, empenhado em encontrar sentido e sensualidade, para que possa, talvez, acender a faísca de uma obra bem sucedida, capaz de dar habitação aos homens.
A realidade da arquitectura é o concreto, o que se tornou forma, massa e espaço, o seu corpo. Não existe nenhuma ideia, excepto nas coisas.”
DAS PAIXÕES PELAS COISAS
1994
Nesta conferência, Zumthor fala do lugar, percebe e faz críticas aos espaços por meio de descrições de vivências dos lugares, muito mais do que da observação, confessando-se um mau observador.
Tal constatação, um tanto contraditória, entre observação e percepção, é uma característica marcante do seu pensamento. Ele aprecia a arquitectura que disponibiliza o espaço, que se deixa habitar, que pressente as necessidades e as satisfaz discretamente.
O CORPO DA ARQUITECTURA
1996
A linha de pensamento do autor leva-o nesta conferência a divulgar apreciações específicas de obras construídas e exemplos reais de como servir a arquitectura.
No cinema por exemplo, o modo como um determinado realizador, Aki Kaurismaki, a título de exemplo de Zumthor, trata os seus personagens com feitos dignificáveis e misteriosos , é no seu entender, o mesmo modo como um arquitecto pode e deve respeitar a sua obra.
Menciona ainda um caso em que se propôs a avaliar projectos no âmbito de uma distinção em boa arquitectura, e recorda uma ideia que se assemelha ao seu pensamento. No caso, uma ampliação e remodelação de um celeiro para habitação, em que a sensibilidade no respeito pela sua época de concepção foi bem tomada em conta, não obstante a simplicidade demasiado evidente do projecto para um reconhecimento preciso de arquitectura.
Fala ainda de uma conversa sobre as qualidades sensoriais e o significado das matérias-primas madeira e pedra, e como estas se pode exprimir nos edifícios.
Menciona de seguida uma situação em que se encontra num compartimento com vista para a Central Park South, em Nova Iorque. Ali observou o rectângulo imenso por onde se estende o reconhecido parque, e compara a restante malha urbana que o cerca, a uma moldura de um quadro.
Mencione-se ainda a sua curiosa referência à praia da estação balnear, da região Cinque Terre, em Itália onde segundo pode observar, havia um considerável número de mulheres com tatuagens no corpo. Conclui o próprio que estas as requerem tendo em vista uma afirmação da sua identidade, a seu ver uma forma de expressar uma arte contemporânea através da sua expressão no próprio corpo.
Mais à frente, e após deambulações por assuntos menos consequentes, baseados em experiências pontuais, menciona uma dessas experiências bastante curiosa. Conta que visitara uma cidade com um bairro bonito na sua opinião. Ali observavam-se edifícios do século XIX em comunhão com outros de viragem do século. Conta que como em muitas cidades, os corpos dos edifícios eram maciços ao longo da sua disposição pelas ruas e praças, executados em pedra e tijolo. Os locais públicos eram virados para o exterior, em contraste com as fachadas das habitações que dividiam o espaço urbano por entre o visível e o carácter privado de quem as habitava.
Mais tarde soubera de um projecto de ampliação da cidade e lembrava-se do que lhe tinham contado, sobre a existência de muitos arquitectos a habitar aquele bairro da cidade. Esse projecto foi no entanto concebido por arquitectos ilustres, em nada familiarizados com aquela sensação estranha que esse espaço urbano nos fornecia.
Volta a mencionar, como numa conferência anterior o estado de concepção de uma estância termal de Pedra. Muito embora se esteja a provar contraditório, pois explica o quanto pensou numa forma final antes da sua construção, algo que anteriormente achara insignificante, perante uma maior importância de dar liberdade à consequência da função. Sentia-se agora desiludido com o rumo quase autónomo que a obra seguia. Não se identificara com os tons artificiais das cantarias escolhidas em verde e cinzento, afastadas da ideia que transmitiriam sensações mais funcionais e consequentes.
ENSINAR ARQUITECTURA,
APRENDER ARQUITECTURA
1996
Segundo o arquitecto, quando um aluno de arquitectura acaba de ingressar na Universidade, ele deve interiorizar em primeiro lugar, que nesta área, nem sempre o professor pode ter uma resposta pronta para determinado tipo de situação. O professor pode sim, ajudar o aluno a desenvolver um processo pessoal de se auto-sugestionar, e de procurar com o seu meio intelectual a melhor resposta a uma determinada questão, sem se limitar por regras ou saberes de outrem apenas. Em arquitectura, cada caso é um caso. Cada obra pode exigir um variável esforço na busca de soluções convenientes à sua função.
Para dar resposta a isto, um jovem aluno começa normalmente com os meios que tem ao seu dispor. São estes o agrupamento de experiências vividas no seu quotidiano ao longo de uma ainda curta, porém desenvolvida experiência de vida.
A memória que lhe permitiu gravar gostos e soluções consoante uma arquitectura até ali experimentada involuntariamente, é a mesma que o vai amparar no decorrer de uma recolha enorme de informação, onde a balança de aprendizagem tende a pesar o insignificante e o abstracto.
“Os estudantes devem aprender a trabalhar de forma consciente as suas experiências como base dos seus projectos”, conclui o autor.
Após a descrição destes factores fundamentais para a aprendizagem, Peter Zumthor leva a concluir que a arquitectura só com obra completa se pode observar ou dignificar.
A BELEZA TEM FORMA?
1998
Será a beleza uma qualidade de algo, como um objecto, descritível e possível de denominar, ou antes um estado de espírito, uma sensação do homem?
Qual é a natureza daquilo que desencadeia em nós a sensação da beleza, sentimento de experimentar, de a ver num certo momento. A beleza tem forma?
Zumthor pensa que a beleza não tem uma forma definida, podendo ser espontânea, que provem da nossa cultura e corresponde à nossa formação.
Por outro lado, pode ser desenvolvido com o desenrolar do tempo. Um edifício pode ter existido desde sempre e bem à frente da nossa vista, mas não quer isso dizer que lhe tenhamos associado qualquer tipo de beleza ao início. Esta pode surgir de forma inesperada numa milésima observação.
A beleza aparece nos sítios mais inesperados e por vezes onde sentimos a sua falta pode ser onde ela nunca se venha a revelar.